Aumento da busca por diagnóstico de TDAH exige avaliação criteriosa, segundo psicóloga do PAS
Em meio a rotina marcada por excesso de estímulos, notificações constantes, redes sociais e informações que chegam a todo instante, manter a concentração passou a ser um desafio para muitas pessoas. A sensação de distração, os esquecimentos frequentes e a dificuldade para concluir tarefas acabaram se tornando queixas cada vez mais comuns. Paralelamente, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ganhou maior visibilidade, ampliando o acesso à informação e incentivando mais pessoas a procurarem ajuda profissional. No entanto, especialistas alertam que a dificuldade de manter o foco, isoladamente, não significa que alguém tenha o transtorno. Entender essa diferença é fundamental para evitar diagnósticos precipitados e garantir que cada pessoa receba o acompanhamento mais adequado.
Segundo a psicóloga do Padre Albino Saúde/PAS, Kezia Veitas, o acesso à informação representa avanço importante, mas exige senso crítico e orientação profissional. "Hoje existe muito mais informação sobre saúde mental, o que é extremamente positivo porque facilita que pessoas que realmente convivem com o transtorno procurem ajuda. Porém, também observamos aumento do autodiagnóstico. Ter dificuldade para se concentrar em alguns momentos não significa, necessariamente, que a pessoa tenha TDAH. Esse é um transtorno complexo, que precisa ser avaliado de forma criteriosa, considerando toda a história clínica e o impacto dos sintomas na vida do paciente", ressalta.
O transtorno envolve alterações no funcionamento do cérebro relacionadas principalmente à atenção, à concentração, ao controle dos impulsos e ao planejamento das atividades. Pessoas com TDAH podem apresentar dificuldade para organizar tarefas, tendência à procrastinação, impulsividade, hiperatividade e necessidade constante de estímulos imediatos. Essas características costumam interferir no desempenho escolar, profissional e nos relacionamentos, especialmente quando estão presentes desde a infância.
Kézia Veitas lembra também que é justamente nesse ponto que surgem muitos equívocos. “Ansiedade, depressão, estresse, privação de sono, sobrecarga emocional, alterações hormonais e até o excesso de estímulos do cotidiano podem provocar sintomas semelhantes. Outro fator que tem despertado preocupação é o uso excessivo das telas, principalmente entre crianças e adolescentes. Celulares, videogames e redes sociais oferecem estímulos constantes que mantêm o cérebro em estado permanente de interesse. Muitas famílias acabam interpretando isso como um sinal de que a criança não pode ter TDAH; afinal ela consegue permanecer horas concentrada em um jogo ou assistindo a vídeos. Entretanto, essa conclusão nem sempre está correta. Os dois lados precisam ser avaliados”, reforça.
Ainda segundo a psicóloga do PAS isso acontece porque a atenção depende da ação de neurotransmissores, como a dopamina e a noradrenalina, substâncias responsáveis pela sensação de prazer e motivação. "Atividades altamente estimulantes, como o uso de dispositivos eletrônicos, promovem liberação constante desses neurotransmissores, mantendo a pessoa focada por muito mais tempo. Em contrapartida, tarefas que exigem esforço contínuo, como estudar, ler ou realizar atividades escolares, não oferecem a mesma recompensa imediata, tornando-se mais difíceis para quem apresenta alterações no funcionamento da atenção. Estudos indicam que adolescentes deveriam limitar o tempo recreativo de telas a aproximadamente três horas por dia. No entanto, não é incomum encontrar jovens que permanecem conectados durante oito, nove ou até dez horas diariamente. Esse excesso pode comprometer o sono, reduzir a motivação para outras atividades e dificultar ainda mais a manutenção do foco", alerta.
Diante desse cenário, Kézia reitera que o diagnóstico do TDAH deve ser sempre realizado por profissionais capacitados e nunca baseado apenas na observação de sintomas isolados. A avaliação é clínica e envolve investigação detalhada do histórico do paciente, da intensidade dos sintomas, do momento em que surgiram e dos impactos provocados na vida escolar, profissional e social. Psiquiatras, neurologistas, pediatras com experiência na área e psicólogos costumam atuar de forma integrada nesse processo, garantindo análise mais ampla e precisa.
Foto: Divulgação FPA
